terça-feira, 30 de maio de 2017

deus líquido

talvez deus esteja dentro de nós
líquido como o sangue
a sua fúria correndo em nossos canos frágeis
o som dos ossos na cripta da nossa carne frígida
mostra que deus está vivo e
a balbúrdia de deus ecoa
encarcerado nas paredes maciças
mas há algo errado com o deus da nossa carne
ele morre toda vez que eu menstruo
e toda vez que eu vejo deus
é apenas para pedi-lo que não procrie:
O SENHOR JÁ NOS FEZ FRACOS DEMAIS.


eu ando perdendo alguns hábitos como
deixar ao acaso que a próxima música da rádio
represente o sentimento de alguém por mim
ou
o hábito de fumar para ir ao banheiro
o hábito de sing along
o hábito de conversar sozinha em inglês
o hábito de querer controlar o que pensam de mim
o hábito de gritar com objetos inanimados que me desobedecem
o hábito de chorar
o hábito de me entreter com histórias repetidas
o hábito de não esquecer
o hábito de esperar o inesperado
o hábito de colocar romance numa colher de café
o hábito de mergulhar
o hábito de tomar banho quente
o hábito de estar satisfeita
o hábito de não ficar faminta
o hábito de me tocar
o hábito de me olhar no espelho
o hábito de fotografar
o hábito de não me perdoar
o hábito de gostar da rua
o hábito de paredes (porque talvez eu tenha mais do que quatro)
o hábito do barulho
o hábito de preferir a noite
o hábito do escuro
o hábito de desistir
o hábito de não insistir
o hábito do isolamento
o hábito da poesia

o hábito de atualizar as pessoas sobre minhas perdas de hábito é apenas um hábito que, ao mesmo tempo nunca adquirido, nunca perdi.