sábado, 31 de maio de 2014

tre metri sopra il cielo

queria que comigo estivesses
nesse quarto em breu sereno
sentindo a brisa tocar tua pele
comigo dividir um cigarro
impressionado pela madrugada
quando alguém acende a luz

queria que comigo estivesses
em silêncio
dançando de mansinho
apenas pra sentir que sou a tua

queria que comigo estivesses
assim, tu em tolice alguma embarcaria
pois sentiria na minha pele nua
a vibração do meu amor

queria que comigo estivesses
pra saber o quão louca estou
em ser dona da tua louquidão
queria que comigo estivesses
porque, simplesmente,
comigo você estaria.
I
caso um dia queiras, meu amor, me esquecer:
queime o meu nome escreva "nunca mais"

II

uma mariposa pousa
uma mariposa voa
mas eu não

III

oriental
ocidental
o céu é seu
mas é também meu

IV

perdi você
sem querer
querendo o teu sofrer
eu sofro,
mas não você.

pequenina flor solitária de um jardim tão feio

eu te abracei forte, minha menina
mas não foi real
eu não morri de saudades tuas
mas você me abraçou com amor
e eu me senti tão mal
por não te amar de abraços

me acalma saber que não me amaste
quando eu te amei tanto
os teus horários apertados
tuas imprevisões
teus desencontros que nos distanciavam
do abraço
mas, ah, como eu me sentia bem contigo
em te confortar
minha menina

então volta a me ligar quando tiver um tempo
volta a me abraçar daquele jeito de encontro
eu sei que meus cabelos, mais longos hoje,
cheiram a cigarro, cheiro que você detesta
mas também cheiram do meu perfume,
que você adora

então, B, me abraça assim de novo...
porque eu não conseguiria não te amar...
nem que eu achasse que não te amo.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

céu I

— Quero viver em paz. – ela suspirou, estagnada no trânsito de constelações.
Ele se virou para olhá-la, tentando não colidir com o infinito.
— Eu não lhe dou paz. É isso?
— Não, Gabriel.
— Então, que eu não lhe dê.
— Eu quero paz. – ela disse novamente, inundada em imensidões de corpos celestiais.
— Eu estou ofendido. Eu não lhe ofereço paz!
— Você me oferece paz, Gabriel. Eu só não a aceito de você.
Ele pareceu confuso, enquanto desviando de estrelas.
— Por que não a aceita?
— Eu quero dançar com você. Mas você vai me conduzir...
Ele ficou em silêncio, com aquele olhar marejado de ondas violentas.
— Eu preciso da minha paz, Gabriel. – ela o enxergou através dos seus olhos e fez uma oração.
— Você não me dá paz.
— Nem ofereço. Não roubarei a única que você possui.
— Você é tão inocente, pois é a única paz que eu tenho. E só por isso ofereço.
Ele selou sua boca com um beijo e eles continuaram viagem.
Em paz.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

exageradamente

parei de fumar
agora rezo pra orixá
você me fez menina direita
e nem me atrevo a desviar
do teu corpo
nem da tua prosa
que me faz arrepiar
encolhida nos varais de cordéis
dos teus encantos
eu me permito alucinar
com a tua voz a sussurrar no meu ouvido
que você quer me ver gozar
eu vou te fazer contente
quando eu puder te acordar
com a sua boca entre os meus dentes
e te ajudando a despertar
com a proposta indecente
a rouca intenção de te amar
eu vou me acolhendo nos teus braços
absorvida pela tua pele suada
até encontrar o teu cansado coração
onde me deixo morar
desarrumando tuas bagunças
aprendendo a descansar.

exageradamente,
os teus gestos ao dedilhar
a tua trêmula boca ditadora
a tua tirania me faz salivar
e dilata minhas noites ao se prolongarem
cifradas em saudade
dispostas em mais pausas pautadas
do que em ruídos de acordes violentos
do teu violão desafinado e inseguro
quero violar as tuas roupas com manchas do meu corpo
e descansar os meus músculos na tua cama
como que, exageradamente,
você fosse me amar
apenas por me desejar,
irreversivelmente,
para sempre.

Trovas de muito amor para um amado senhor

Nave

Ave

Moinho

E tudo mais serei

Para que seja leve

Meu passo

Em vosso caminho.

(I)



* * *



Dizeis que tenho vaidades.

E que no vosso entender

Mulheres de pouca idade

Que não se queiram perder



É preciso que não tenham

Tantas e tais veleidades.



Senhor, se a mim me acrescento

Flores e renda, cetins,

Se solto o cabelo ao vento

É bem por vós, não por mim.



Tenho dois olhos contentes

E a boca fresca e rosada.

E a vaidade só consente

Vaidades, se desejada.



E além de vós

Não desejo nada.

(Hilda Hilst)

sábado, 24 de maio de 2014

se quem procuro embriagada,
louca de um colo,
louca de um beijo
em mero anseio de longas carências
é você: te amo.

se quem procuro com os braços longos
com os jeitos sonsos
os sorrisos meigos
e a cama toda desfeita
é você: te amo.

te amo quando não posso amar outro
te amo quando é segredo amar-te assim
te amo quando encaro o teu amor
te amo quando sou apenas eu e você, enfim

te amo até sem rimar
te amo até sem mar
mas te amo
e isso, infelizmente,
não posso me dar.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

uma carta de amor para minha mãe

"Se, sem saber, fingindo então te amasse,
e tu também me amasse só fingindo,
seria bem estranho se este amor joasse,
criasse em nós o amor mais louco e lindo!

Se, sem querer, me amasses tu mentindo,
e se eu mentindo, de ti, gostasse,
o que faríamos se este ardor criasse,
em nós um querer terno e tão infinito?!

Seria este amor verdade sem tormento,
torturado num falso fingimento,
vivo na morta chama do fingir...

E em nosso peito ardendo em loucas iras,
teríamos a mais rude das mentiras,
de quem fingindo jamais quis mentir!"

A.

você

estar dentro de você é se perder em
redemoinhos alucinados,
inquietos e inconstantes,
inconsequentes e fiéis
à tenência das entidades absolutas.
absorvida pelos teus loucos ensejos,
efeitos dos teus incríveis defeitos.

é saber a verdade do teu corpo
estar dentro de você é estar dentro de mim com outro
estar dentro de você é estar dentro de um furacão enlouquecido
em busca de sossego
embora seu desassossego seja abundante

estar dentro de você é morar em silêncio
em música
em névoa
e ardência
estar dentro de você é estar dentro de mim,
quieta, amarrada,
morrendo em prazeres
lindos enganos
que por serem enganos
não me enganam jamais

domingo, 11 de maio de 2014

eu vivo pra amar

eu tenho medo desse sentimento dormente que se aloja em mim cada vez que eu piso nessa cidade. É um choro velado, de deuses passados, de plenitudes muito extensas para serem extinguidas com infinitos de felicidade. E aí me vem a vontade viciosa de fumar um cigarro ou dois, tomar uma garrafa de vinho ou quatro, para mascarar a vontade chorosa de estar em outro lugar. E me sentir culpada a cada sentença de amor que me é perfumado. Eu amo o cheiro dela, amo poder abraçá-la e dizer que a amo a cada vez que chega exausta do trabalho, mas meu tempo é onde. Meu tempo é quando. Meu tempo não é aqui. Sou, aqui, tempo perdido, com todo o perdão do empréstimo infeliz. Eu me sinto presa a vontades escapistas e burras, quando, no mínimo, distraídas. Estou com medo de ser subjugada a esse lugar de novo. A esses infinitos retóricos e pictóricos que me fazem descrer numa felicidade, ainda que efêmera. Eu creio e crio monstros para me salvarem de um inferno dantesco, quixotesco, enormemente babaca.

Mas eu me protejo da dor e projeto esperanças, vontades e uma fé enorme. E sigo com meus vícios, minhas ilusões, os meus amores, meus poemas, minhas solidões, sem nunca ceder, nem nunca ganhar, nem nunca perder e nunca matar.
eu me afogo nos arrepios dessa pele fraca
minha carne suplica pelos teus pelos
teus apelos
tua pressa e tua loucura

quero me afogar nos meus lábios
manchados de vinhos e outros batons
e na tua boca descobrir os meus segredos
mais insanos que apenas teus olhos
serão capazes de revelar para mim 

e no teu armário provocar loucuras
tuas roupas, confundi-las com meus vestidos
até que se canse de ter roupas, sequer
amarrotar-me em sua cama durante dias
presa em teus lençóis sujos demais
presa nos teus braços suados
e me arrepender de ter escolhido amá-lo

despejar em ti um amor todo que cabe em
meu corpo miúdo e exausto de tanto amor
e caso recusá-lo, ter para quem dá-lo,
a cada instante de pavor

mas desejá-lo ainda assim, 
pelas tuas dormências tantas,
as tuas defesas e as tuas mentiras
os teus defeitos e erros que me enlaçam
e me cercam 
e eu desejo
e não te nego
apenas me desfaço em poesia
pra versejar os teus passos inseguros
que numa mesma prosa nunca serão eternos
[apenas enquanto duram]

quarta-feira, 7 de maio de 2014

minha nega

eu abdiquei da minha vida noturna
dos bares
olhares
cores
sabores
amores
carnes
vícios
pra nada

eu encontrei minha nega!
mas ela não tem dó de mim
não chora
não ama
só samba
e se esquece de mim

eu abdiquei da minha vida noturna
mas ela se abdicou de mim
e eu vivo por aí à fora
sempre esperando pelo fim
[da cachaça]

às vezes ela me acha
me procura por um cigarro,
pinta meu filtro de vermelho
prende os cabelos negros
e não volta nunca mais.

menina

criei um poeta aqui em casa
e ele me amava todo o dia
e me chamava de pequena
e a mim ele fazia
poesias de alguns versos
que eu lia em sua cama
parecendo ninfetinha

ele me dava um codinome
que eu dizia sobrenome
pra fingir que era casada

um dia meu poeta
morreu engasgado
com um sorriso acentuado
e tive que virar viúva
pro meu amor não morrer arrefeçado.

um mês

relaxa, pequena, é só um mês
nega, relaxa
o teu ritmo volta de onde parou
teus estudos, tuas rodas de samba
sem graças ou não
as tuas cervejas chocas
as tuas janelas abertas
serão vedadas agora

se receita revisitar alguns amores
para que se livre de algumas dores
e se envolva nos braços quentes
desse lar do qual você
não se despede, enfim

e quando for voltar,
volta, pequena, volta pro teu mar
volta pra tua roda de samba com graça
e que nunca disfarça quando quer dançar
volta pra cama do teu nego
e vive um dia inteiro sem nem se levantar
volta pro teu sorriso que te espera
ansioso para nos teus lábios se abrigar.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

qual é

hoje eu não quero descanso
me leva pra sambar, amor
pra qualquer lugar, eu vou