terça-feira, 29 de abril de 2014

eu conheço o meu samba

se eu tenho no meu samba algum problema
é porque estou coberta da tristeza
de quem se atreve a amar com poesia

quisera eu, ingênuo anseio
te ter quando eu pudesse tê-lo
quando o tempo fosse meu inteiro
e meu corpo pudesse ser o teu,
sem restrição

mas eu navego pelo mar aberto, amor
sem medo das ondas da tua Mãe
que veleja da minha imensa dor
ela é também mulher

eu navego pra tanto porto, amor
sem saber se posso ficar
sem nem querer, sem nem cobrar
de vento em prosa por um cobertor

despertando em abraço morno
qualquer tipo de afeto
isso eu não mereço
mas também não nego
e me surpreende que seu abraço quente
me tenhas mais de perto

quando nas noites do teu suor profundo
você ouvir pequeno sussurrar vagabundo
vem de mim 
nesse mar em que me afundo

e quando me ouvir
não tenha medo, amor
a vossa Mãe conhece a vossa dor
e não deixaria eu te tragar
se em um louco beijo
eu ameaçasse te castrar o samba

se eu tenho no teu samba algum problema
é não querer cobri-lo de tristeza
com o desassossego que trago ao teu amar.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

antes só

se envaideciam em brasa
entre as coxas suadas
se arrastavam provocando arrepios
longuíssimos
as digitais eram sensações
de pertencimento

às vezes, eles se cansavam
tinham medo de continuar
pois fervia demais
logo depois retornavam
impetuosos
mais rápido

(era ela partitura 
coberta de pausas
e silêncios
mais longa ainda
era sua melodia
de gemidos
[uma orquestra 
dedilhada])

não a julgavam imoral;
não tinham ouvidos,
não tinham boca,
não tinham pau

tinham a ela
e ela somente a eles
seus dedos;
seu íntimo
seu prazer
sua solidão.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

sempre que posso

"eu não quero os teus olhos",
ele me diz
e me repete outra vez
pra virar verdade,
eu não sei.

"eu não quero os teus olhos"
e por que não os quer?
"eu adoro teus olhos no sol"
e por que se apavora?
"eu adoro teu cabelo molhado"
e por que não assume?
"eu odeio a tua boca"
e por que a namora?
"eu não sei parar de te olhar"
e por que você pisca?
"é que eu não sei amar"
e por que você me ama
tanto e nada,
sempre que pode?

a cada oportunidade de voltar
gira a manivela da saudade
e nos coloca pra dançar.

isso é covardia.
permanecer sem nunca estar.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

eu quero a culpa dos teus versos

não me culpe, meu amor,
quando eu me calar
não me culpe por pensar
e nem por não me culpar
não me culpe por ter
dúvidas de você
e não do meu próprio querer

não me culpe por ser
demais dos outros
e mais ainda minha
porque os teus olhos
não me enganam
mas as tuas palavras
sim

não me culpe
pois no passado
eu acreditei nos olhos
e calaram meu desejo
com palavras

não me culpe, meu amor
se assim eu te chamo
e se assim eu me engano
no teu corpo safado
quando meu corpo safado
te toca sem pudor

não me culpe, meu amor
por ter aprendido a gostar
só de graça
a gostar só pela carne
sem querer gostar demais
por muito tempo e
nunca mais

não me culpe, meu amor
se de você eu gostar demais
não me culpe, meu amor
pois eu não vou te culpar
por nenhuma das tuas culpas
a não ser que você queira
me culpar

não me culpe, meu amor
pois eu nunca te culparei
pelos teus erros passados
e esquecidos
enquanto você muito errar
comigo e eu quiser sorrir
do teu errado
sem querer nem consertar
pelo mesmo motivo
que você teria em não
hesitar em me culpar

não me culpe, meu amor
por querer teus dias,
mais ainda as tuas horas,
o teu desejo
e o teu corpo
não me culpe, meu amor
por te querer de pele
de carinho e de apelo
porque eu quero o teu querer inteiro
mas não posso viver sem mim

não me culpe, meu amor
por acreditar nas tuas mentiras cruas
e ainda assim não tomá-las como verdades
embora você as repita
para assim revertê-las em arte
para assim sermos nós

não me culpe, meu amor
pois de você eu não quero nada
de você eu sei mais que nada
e não sei querer saber demais

não me culpe, meu amor
porque eu te quero demais
mas te quero demais agora
e talvez te queira demais depois
não me culpe, meu amor
se eu já quis outras pessoas
e você já quis outras também
não me culpe, meu amor
por não querê-las mais também

não me culpe, meu amor
por saber amar
enquanto eu não culpar
a tua inabilidade indiscreta
incerta tênue e cínica
de não querer saber amar

não me culpe, meu amor
quando eu não permitir
desculpas tuas
quando tentares se culpar

não me culpe, meu amor
porque eu vou me permitir
invadir a tua vida
não me culpe, meu amor
se eu em você confiar
pois o dia que eu assim fizer
não me culpe,
pois aceitei contigo dançar.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

não me cale

que meu calar
seja necessário
apenas nos silêncios
onde cabem dois

que meu calar
silencie o teu calar
com um beijo surdo
ou talvez dois

que meu calor mudo
se atenha ao teu calar-se cego
e que a tua boca
com a minha 
descanse de nós

que meu silêncio
não silencie 
os ruídos do teu corpo
nem do meu corpo
nem dos nossos suores
mas que tenhamos,
quando o silêncio se for,
um ao outro.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

a coroação de ana

me desfiz em poesia
deitei no chão da cozinha
pra ver o meu amor passar
de lá pra cá
com a sua calcinha

a pequena estava em prantos
chorando
mas era tão bonita
que eu a continuava coroando

num pequeno sambinha
pra ela ouvir sozinha
me inclinei num sorriso sacana
pra versejar para os olhos de Ana

"quando tu dança sozinha
me deixa ardendo"
se deita nos meus azulejos
na infinidade do mês de fevereiro

joga em mim as suas roupas todas
e louca, pinta a boca
pra na rua de carnaval
um homem deixá-la rouca

será que ela se acha lá fora
de sainha
com qualquer fácil ladainha
nas graças de sua
calcinha rendadinha?

no quarto confete errado
volta pra casa arrependida
de coração apertado
pedindo pra ser concedida
ao direito de ser só minha rainha

eu, no carnaval cotidiano,
arlequim insano,
tomo o teu circo nos braços
como bom palhaço
e um triste fim de carnaval.

terça-feira, 8 de abril de 2014

festim diabólico de mim

vamos festejar à vida, eu disse.
e disse tão sem crer
que ninguém em mim quis  crer
junto
teus quereres, ele disse, são gris
são tão gris que poluem os meus
vá à merda, eu disse
ele rolou os olhos pra mim
e sem querer foi embora.

oras, eu agora tenho que explicar
porque minha festa é tão sem graça
que nem eu mesma consigo acreditar.

mas ele disse, um dia, antes disso tudo
que eu só iria acreditar
quando eu, enfim, soubesse perdoar
minha imensa capacidade de apenas
respirar.