sábado, 26 de outubro de 2013

para onde irá essa noite?

insisto numa imaturidade comum.

por que você me toca dessa maneira?
se aquela mulher que tua mãe conhece
espera que você ceda das noites
enrubescidas de conhaque?
se há alguém na tua cama,
te esperando voltar,
de cara limpa, roupa limpa
sem marcas na boca ou no pau?

pra quê me dar o teu desejo,
se não podemos ser?
pra quê dar-me a tua noite,
se não podemos ser dia?
pra quê querer o meu corpo,
se na manhã seguinte eu me desfizer?
pra quê querer o meu desejo,
se não pode sê-lo completo?

não se engane,
não é por querer uma vida completa,
nem incompleta,
com você

mas é por querer a intensidade
dos vivos
ao menos uma noite inteira
de corpo e alma inteiro
nem que na manhã seguinte
o pássaro selvagem voe pra outra direção.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

meu bem

eu penso em você, eu penso em você, eu penso em você, eu penso em você.

eu morria a cada atenção dele, a cada vontade de tê-lo que me afogava, me queimava, ardia e me curava. 

o teu olhar florescia a minha vontade de continuar.
mas minha pele e minha alma lembravam-me de outro alguém.

se esse alguém me voltou
com vontade de ficar,
eu penso em você que me
 quis num instante e
agora já não me quer.
eu preciso amordaçar minha vontade de você.
mas eu ainda penso em você.
que tolice! 
pensar em alguém
a não ser em mim.

eu sei

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

vulgaridade


faz parte de um futuro remoto a tua concretude na minha matriz... talvez eu saiba por intuições recadastradas a cada visita tua, a cada "vambora daqui, pequena". Ainda sei que os teus passos leves vão atravessar a casa inteira pra me dar um beijo cansado. Na superficialidade da vulgaridade, além daquilo que você me proporciona como mulher, creio que amor nos dá completudes transitórias... você me move. Direi-me viúva quando não mover-me mais. Numa existência de amores tão deslocados e efêmeros, gosto de ter uma efemeridade como a tua colocada na minha intensidade. Guiar-me dentre as galáxias das tuas palavras velhas, gírias estranhas e olhos safados. Engolir com os lábios as tuas sábias perversividades. Acendo um cigarro, sirvo o conhaque, boto Led Zeppelin pra tocar e te leio uns contos eróticos. Se me surpreendes na porta do elevador, ou enquanto leio, enquanto me perco entre melodias que sempre soube descrever melhor do eu, é quando sou pega por essa banalidade romântica de que um beijo pode desassossegar. E transborda. Refaz.

Refeita, eu encontro nos minutos ausentes do desassossego um Nenúfar crescente de paixão. E dentre as flores mais honestas das possibilidades causais da doença, acredito que seja você, crescente como um Nenúfar no pulmão de Chloé, num realismo fantástico embebido de desfazeres. Eu acredito em nós. E acreditar em nós é a pior das minhas tolices... é a pior das minhas doçuras. Acreditar em nós é acreditar que meus crimes foram perdoados. É acreditar que minhas mentiras e minhas verdades foram apagadas dos nós da identidade história. É acreditar que é possível o esquecimento, a benção de uma mente sem lembranças.

Sou imprudentemente maravilhada pelos meus pecados... Vivo num presente de dualidades, uma péssima e outra incrível, onde há doença e há cura, sendo a minha doença a melhor parte da vida, vulgar, e a cura tão esquecida de mim mesma que logo se esvai com desentrelaçar de meses. 

Mas os meus dedos estão entrelaçados nos teus... Me guio pela cegueira, me guio pelo instinto, pelo cheiro e pelo gosto dos meus apelos. Te sinto como o verão e toda sua sensualidade desafinada me aquece. Sou mantida à temperatura do teu corpo. E não suspiro ou transpiro a medida da tua vontade. Incrivelmente vassala. 

A rouquidão dos nossos dias repete o eco dessa melodia melancólica que tem um programa diário com intervenções de gemidos.

Ainda sei que os teus passos leves vão atravessar a casa inteira pra me dar um beijo cansado.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

demais

todos acham que eu falo demais
e que ando bebendo demais
que essa vida agitada não serve pra nada
andar por aí
bar em bar
bar em bar

dizem até que ando rindo demais
e que conto anedotas demais
que não largo o cigarro
e dirijo o meu carro
correndo e chegando no mesmo lugar

ninguém sabe que isso acontece porque
vou passar minha vida esquecendo você
e a razão porque vivo esses dias banais
é porque ando triste
ando triste demais

e é por isso que eu falo demais
e é por isso que eu bebo demais
e a razão porque vivo essa vida agitada
demais
é porque meu amor por você é imenso
o meu amor por você é tão grande
o meu amor por você é enorme
demais

sábado, 12 de outubro de 2013

eu não me arrependo de Nebraska

Um gato miava. O apartamento em silêncio absoluto, um cigarro aceso. Um tipo de tempo e apenas os ruídos da televisão brilhando sob a profundidade tão superficial da morbidez. A hora marcada de rumores sorrateiramente ligeiros e aparentes, um minuto a cochichar com o próximo minuto. Por costume, ele recolheu-se para dentro de sua consciente melancolia de apartamento, uma amargura com ímpares dissabores. Fumou seu último cigarro do dia e embargou mais uma noite cansada.

Sua rotina quase que se repetia, espreguiçando-se ao atravessar das semanas. Quis contar ao próprio âmago um antigo segredo frígido. Quis abençoar-se com toda a culpa que a comiseração é capaz de amordaçar. Tinha comum à mordaça alguns conceitos sexualmente freudianos, esquecidos na orelha de algum livro ordinariamente chato ou num anônimo de citações próprias. Surpreendido pelas revelações de suas preferências emocionais, transferiu o lirismo a sexualidade. Comia todo mundo. Pedia certificado de propriedade efêmera e emitia aquele recibo gozado com os efeitos de uma fragilidade. 


Era sozinho. 
Por vezes, ele não se lembrava quem era, 
mas sabia exatamente de quem sentia a falta. 
Tinha plena consciência da ausência de si. 

Eu também cercava-me disso, atendia aos seus telefonemas gentis e desanimados, enquanto ao lado o conhaque e o cigarro aceso que se consumia por si só. Chegava a escrever o seu nome em todo o cigarro para tragá-lo aos poucos e sempre desistia, fazendo guimba na última sílaba. Eu desistia, não procurava por ele durante semanas. Tinha resolvido afastar-me, deixá-lo respirar, afinal, sabíamos viver separados. Ainda que entre tropeços e engasgos. Eu poderia afogar-me nas palavras e ele poderia afogar-se numa boa foda, either way. Tínhamos vivido anos em segundos. Nos amamos entre os goles de champagne no céu, sem beijos ou compreensões dignas. Externamente ordinários numa intensidade lacrada de outros amores. Outras dores. Não éramos puros. Carregávamos as cicatrizes das guerras anteriores. Particularmente, havíamos participado de sangrentas batalhas com gosto de gim pela metade e isso nos dilacerava.

Os boatos das horas contavam silêncios encaixados entre acordes. A melodia seguia e entre aquela tristeza sobrava apenas o nada. Um cheiro de nada, uma cor neutra, um gesto desmantelado pela insignificância. Não conseguíamos desatar os nós, a penúria de desatá-los e o barulho do telefone ecoando nos cômodos natimortos e mudos. Uma surdez de amores cercados pelos cegos martelos do tempo. Monstros inventados por boêmios sábios de um pedaço bonito em Nebraska. Dê-me uma espingarda, rum, dinheiro e um baseado para ver-se livre de mim e do meu amor errado.

Não se arrependa jamais.