segunda-feira, 9 de setembro de 2013

o professor boliviano

"Eu nunca serei capaz de agradecer o suficiente por
todos os anos que você gastou me salvando."
Há muito que vinha sentindo falta de um amigo meu. Tínhamos sido o que, talvez, nunca ninguém teria se atrevido a ser um ao outro, agarrados à uma conquista diária de covardias e coragens, de ilusões mascaradas socialmente ou apenas por dissimulação submissa de amor doentio. Mas tal conquista de confiança, tal amizade conturbada e fascista deixou-me as marcas da promessa distante, da fuga, do romantismo estranho que me prometia um irmão. Um jeito de não estar sozinha, ao menos por alguns instantes. 

Venci o jogo, entretanto, perdi o amigo. Perdi a alegria daquela ingenuidade, daqueles olhos que se faziam muito espertos, daquelas conversas que encardiam os sorrisos no canto do rosto, aquela coisa que não era solitária, tão menos trivial.

Vinha sentindo a falta dele e como descobria-me a partir dessas faltas e nunca das presenças, fui procurá-lo. Fazia oito anos que não nos víamos, que ao menos tínhamos notícias um do outro. Talvez ele tenha me visto nas revistas, por aí. Mas eu não sabia dele. Ninguém sabia dele. Quando fui procurá-lo, decidi ir pelos métodos antigos, pelos nostálgicos nomes da lista telefônica. Falei com a sua mãe e ela, depois de alguma insistência e algumas confissões, forneceu a mim um endereço. Ele estava na Bolívia.

Não me demorei a marcar a viagem. Ansiava a reação quando percebesse o quão afiado estava o meu espanhol, posto que eu mal conseguia pronunciar uma frase sem confundir com o português ou o italiano, antigamente. Mal podia esperar para vê-lo homem, depois de tê-lo deixado menino. Sentia-me incrivelmente frágil, como nunca havia estado em sua presença ou menção, exatamente como a doce ingênua adolescente insegura, que antes, à encenar pra ele, eu havia sido. Fazia-me sorrir, como a esperá-lo às quatro e desde às três ser feliz.

Trabalhava em uma escola de línguas remota, ensinando português, de modo que eu mal podia acreditar que tornara-se professor, tão menos de gramática, dado a sua aversão imensa pela matéria nos tempos da mocidade.

Quando o vi, mal pude aguentar a tristeza ao contraste do riso. Havia mudado tanto! Estava surpreso, mas parecia resignado. O seu cabelo estava mais longo, talvez ele estivesse um pouco mais velho, entretanto, a tristeza dos teus olhos continuava a mesma. Quis acreditar que ele estivesse apenas cansado. 

Mal conseguimos nos cumprimentar, éramos ruins, ambos, nisso. Gosto de crer que ele tenha ficado feliz em ver-me também.

Havia tantas coisas não ditas no passado, tantas coisas que a arte não foi capaz de comunicar, tão menos eu mesma. Tão menos a quem eu criei nas últimas semanas de contato. Mal poderia enxergar em mim aquela que conheceu, parecia, talvez, um mesmo corpo, mas não a mesma pessoa. Os soluços das palavras entrevadas ainda sobreviviam no estômago. Meu corpo se rendia aos poucos, ao choro, aos lamentos. Mal sabia ele das coisas as quais privava ao seu conhecimento, não gostaria de preocupá-lo, tão menos vê-lo assim. Ele merecia estar feliz. Ou apenas fingir estar feliz. Cuidei da tua felicidade como se fosse a minha própria. Tentei regá-la, mantendo-me longe, mantendo certos eventos longes dos teus eventos. E mesmo que tenha dito que enjoaste de mim, eu não enjoei de você. Embora esses caminhos tenham se cruzado na Bolívia e quem sabe, um dia, se cruzem no Canadá, no teu rosto, por favor, um sorriso.

Posto que a solidão dos teus olhos ainda fogem da solidão dos meus olhos e ainda evita olhá-los e quando olha é porque sabe que eu vou desviá-los, quero-te feliz sem mentir (nem você, nem eu)!

Adios/ hasta luego. 

domingo, 1 de setembro de 2013

slow down, you crazy child

o recomeço dos olhos parte a princípio de um único relance próprio. Do ser, a vir, a enaltecer a partir do querer honesto. A espécie sincera da liberdade, olvidada pelos costumes, pelos consumos, pela fragilidade efêmera do tempo. A contar o que não se pode dizer, pelo medo. A chamar a solidão para dançar. E crer em si mesma. Inclusive nas tuas incapacidades. É se desculpar consigo mesma, refletir-se através de outrem, sem que custe e cobre de tais outros. A vir, perdoar-se, por fim, pelas próprias qualidades autodestrutivas e pelos defeitos enobrecedores. É ganhar-se, interessado. É perder-se em si. Conseguir compreender as necessidades desnecessárias de um evento fútil qualquer. Desvarios, libertá-los! Romper com o mundo, queimar os próprios navios, sem a excitação de uma furtiva emoção que se lança através do entrelaçar com olhos castanhos de um outro alguém. É apaixonar-se pelo espelho, sem mergulhar nas ondas de Narciso. É conhecer-se, amante pagão de si mesmo, seios nas próprias mãos. E tais empréstimos das canções de Chico, nas quais há de perder-se, tome conta de si. Como dedica-te a cuidar dos outros.

E quando pronto, partir ao útero do mundo. A descobri-lo, consumi-lo, devorá-lo, libertá-lo. Sem enclausurar-se, sem levar a prisão consigo, mas divagar e devagar chegar a conclusões inusitadas. É permitir-se uma doença mental alemã quando maduro, mas esquecê-la precocemente. É amar a teus inusitados desvios, confusos caminhos, estreitas relações e longas canções. Mas confundir-se sem caminhar em círculos, pra sempre. Compreender a beleza da segunda chance. E comemorar os lances errados, entristecer-se com os lances certos e paradoxalmente chegar a conclusões simplesmente complicadas. É querer, por um segundo, pertencer a uma mão carinhosa. E depois do segundo errado, querer que alguém pertença a tua mão carinhosa. Cúmplice de si, antes do bolero. Dançar o tango descalço. 

seja paciente, garotinha ansiosa
seja, finalmente, quem queres se tornar
viena te esperará.