sábado, 29 de junho de 2013

mais do que um pouco dos restos de mim

você passa levando a mim
mas sem saber de mim
saber num só
saber sem saber de cor
pois já não vi
nem ele também
nem você também viu
tô começando a achar que ninguém
me viu
e eu nunca também
vi ninguém

além do que
teu silêncio é mais triste
que a própria tristeza
a tua tristeza
é tão triste
que chora da própria dor
sem cor
gris cor de amor
aos teus próprios dissabores
mas não, eu nunca quis crer nesses teus
alentos amores

mas me diz quem é você
quero te entender
qual seu direito de chamar
se me pedes sempre pra deixar
descobrir-se sem nunca se mostrar

esse é meu eu-lírico:
não tem lirismo
e fica só o eu

quarta-feira, 26 de junho de 2013

cena

remorso
ensinou-me o blues
e quanto toco 
te toco
tão longe 
com medo

programo a rádio
no horário de pico
sei que você tá ouvindo
no carro
estacionado
embargado
na travessia da cidade

embora um sorriso
me atravesse o dia
pretensão minha
em me fingir feliz sem você

me deixou o blues
pra na gaita eu te projetar
foi até recompensa
ir sem ir de vez

tuas canções
convergem
pro meu corpo
tatuando a tua falta
maculando a minha alma
do jeito que não é morno
o sentir

me embrulho nas melodias
tristes 
nos braços das cenas
de você ir 
de você deixar
e eu te via indo
me via ficando
na via da rádio
horário de pico
rádio mudo
coração moído
eixo interditado

no fim da tarde
me dividia
entre mim 
em você
você em mim
eu em mim
você sem mim

sem questionar
sem nem sorrir
sem nem chorar
sem nem sentir

você
sem se importar.

terça-feira, 25 de junho de 2013

como o amor condena

Decifro-te. Devoro-te. Consumo-te. De dentro pra fora. Me aproprio dos teus cernes masculino e privatizo a favor da minha causa. E estas tuas insanidades, declaro-me culpada pelo crime de alimentá-las, afinal, uma garota má deve ser punida. 

Mas se me punires, e quando fizeres, no cárcere dos teus ensejos, solfejo a canção de exílio e enlouqueço os teus ouvidos afinados, desacostumados a desafinação do desejo ruidoso.

Não peça que se cale, isso aumentará a intensidade da sua necessidade de mim. Mas não me alimente também, pois crescerei para te devorar. Estou aqui para te enlouquecer, me redimo, não vejo a amar. E teus desejos de gritar, eu reprimo com os meus beijos mais imperturbáveis, sem nada a dizer, nem nada a cobrar.

Vou decorar o teu apartamento com o meu cheiro e cor, meus olhos e coxas, e quando tiveres o ímpeto de tocá-los aprenderá a ser um homem paciente. Se sentirá impotente, acuado, até perceber a diferença entre mim e a outra.

Roubarei todos os teus cabides e será obrigado a ficar nu para que eu possa te comer cru. Febril, pedirá por mim, até que não possa mais esconder, até que já não tenhas mais voz e com os olhos dirá que o tenho como escravo.

E como circunstância, crueldade ou consequência, abandonarei o meu posto de garota. Quando fizer-me mulher verei que a tua ocasião de homem não me apetece, os teus sofrimentos já não me riem mais, a tua escravidão já pede por alforria e não poderei negar ao meu vassalo a liberdade que eu tiranizei.

Me darei conta do perigo de te manter como um refém. Condenada: não saberei deitar com outro. E fanática por minha condição, ópio de desejo, deixarei com você um último pedaço, nas feridas que abri com as minhas impressões na tua pele te deixo tatuar uma outra mulher. E depois da despedida, quando os teus segredos já revelados e comidos, nas migalhas restantes que deixarei... fico pelo avesso... cheia de reticências a espalhar, talvez como conto... João e Maria... 

migalhas 
para que você as devore...
e me decifre...
e me consuma... 
e me abandone...
como o amor condena.

se você fosse meu

quero tê-lo
amá-lo
de perto
de longe
no espelho
um toque
só um silêncio

e declarar nas rimas
versadas,
sem pressa,
disfarça,
no canto da boca
contemplar estrelas
constelações
tirar o fumo dos teus pulmões

vai,
aguenta me amar com a pele
durante horas
sem pausa
sem fôlego
sem causa
me arranca do corpo
me faz viajar quilômetros
sem sair de você
sem você sair de mim

se o teu corpo fosse meu
se o meu corpo fosse teu
eu ladrilhava com os beijos
você mandava ladrilhar com os beijos
só pro nosso coração aguentar
tanto amor que se não for agora
já não vai dar de amar.

e quando for embora
não me leve a rua,
nem uma avenida,
nem aquela viela,
leva um pequeno poema
que cabe num bolso
do lado do cigarro
do lado do coração dos homens
com o que você me amava
enlouquecidamente

te espero!
enlouquecidamente...

segunda-feira, 24 de junho de 2013

uma bela mentira

Se ele bem a conhecia, naquele instante, ela lhe ergueria um sorriso monumental. Como estudante de Arquitetura, ele deveria saber como apetecer-se dele. E sabia. Não era um total conceituado, mas ainda assim apreciava a boa arquitetura de Niemeyer. E dali do espelho, olhava-a, devorava aquele rosto que ia se fazendo aos poucos, tímido.
Não sentiu a inércia tomando conta de seu corpo. Nem quando se cortou ao deslizar a navalha do lado errado da barba. Por falta de uso daquele sorriso, ele se fazia eterno. E ele pedia, exaustivamente, para que o tempo parasse, engatinhasse, quando ela dava aquele tipo de sorriso.
Sentia os resquícios da sua pele despertando os poucos, enquanto ela desfazia os risos. A pele vagabunda, tatuada de lábios avulsos. O sorriso, aquele insubstituível, não florescia colorindo as tatuagens das outras. Não ficaria bem àquela mulher colorir as próprias traições. Não se sentia bem sorrindo o dia do teu homem. 
Olhou nos olhos dele depois de pintar o seu dia. Pensou se o prazer que ele sentia com as outras era puro deslumbramento ou se era de todo uma arte. E se confundiu, pois não saberia dizer se, na verdade, era ela: a outra.
Tinha medo de sê-la, porque gostava de estar com ele. Gostava de secar os teus cabelos com a toalha e tatear os óculos sempre perdidos entre as almofadas do sofá. Gostava de mimá-lo com rimas nos sacos de pão e solfejar a sua canção preferida na hora de dormir. E esses instintos maternos a faziam sentir-se nada como a outra, mas sim como uma legítima mulher que cuida do seu homem. 
Ele pouco a mimava e gostava mais de observá-la através do reflexo do espelho do que olhos nos olhos. Ele a admirava demais, mas longe! A verdade é que tinha medo de tocá-la, sentia-se impotente, exposto demais àqueles olhos, àquele corpo miúdo. E se perguntava como algo tão pequeno poderia exercer tanta influência nele.
Os dois esperavam o tempo passar naquele espaço minúsculo. Se olhando através do espelho. Se comunicando através do silêncio. Através das arquiteturas erguidas nos lábios. Através da ardilosa máquina da impessoalidade, da falta de intimidade. Sem vocação pra aceitar ser outra, sem vocação pra ser feliz, sem vocação pra dançar.

Sem vocação pra amar.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Chico é unanimidade

Francisco Buarque de Hollanda (19 de Junho de 1944)
cruelmente delicioso (para os ouvidos, olhos, boca, pele e cheiro)
meu corpo e minh'alma são testemunhas do bem que ele me faz.

tiranizar

se você quiser me prender
vai ter que saber me soltar
você me parece dizer
que nós dois somos um só lugar
e que esse lugar é você
e o resto não deve contar
e é isso que eu chamo tiranizar

desde o começo que o seu jogo é esse, eu não saquei
bem que eu mereço ser agora o grande otário
agora eu sei, todo descuido tem seu preço
eu vacilei, você traçou o itinerário
posso me achar longe ou perto de você
mas se eu deixar ficar assim, vou me perder

escute o que eu vou lhe dizer
me prenda e você me perdeu
me deixe solto e eu sou todo seu.

tio caê (embora o aniversário seja do grande Chico)


na manhã seguinte: não conta até vinte, se afasta de mim

Mandou-me a mensagem atrevida. Não me lembrava de ti, fiz-me relembrar. Fiz-me meio falsa, relembrando a toda vez que ia deitar-me, com aquela camisola de seda que a teu fazer tecia a imaginação mais safada do mundo. 

Você nunca valeu nada mesmo.

E mesmo não valendo, eu ainda insistia para ter do que lembrar.
Com o meu corpo você fazia atrocidades, desde internamente, na boca do estômago, no músculo indomável e vital, nas entranhas mesmo... 
como na pele, nas impressões digitais que você foi deixando, vaidoso. 

Não me deixei ficar por trás, depois. Depois que soube de mim, numa fofoca indiscreta, me quis de novo e acho que nessa declaração te peguei de surpresa, relembrando aquela frase que eu te disse quando amanhecia, você se lembra, na ponta do ouvido...
assim como eu relembro dos teus elogios mentirosos e infantis que ainda me fazem bem ter a sua voz gravada nos gravadores da minha memória.

Seria bem engraçado se a sua namorada descobrisse... seria bem engraçado, se ela soubesse que você me procurou. Seria devidamente interessante, também, já que a ingenuidade passou, o cinismo fez-me testemunhar que o mundo é um moinho e de todos os meus amores foi isso mesmo o que eu herdei. Mas sabe que eu ainda me arrepio e melhor ainda que eu não consiga te amar, nem você me ame, como nunca amei. A não ser que, por um acaso, depois da pele, formos à alma. 

Improvável. 
Sua pele me faz bem demais pra confortar minha alma. É assim que as coisas funcionam. Você se dá bem com uma pessoa na pele, mas não na alma. Se dá bem demais com a alma e tem medo de ir pra pele pra não estragar nada, pra continuar na nirvana ou naqueles rodeios secretos e extasiantes, porque a vida é sem graça sem o flerte.
Você sempre foi o melhor nesse quesito, não tenho como contestar... nem inventar mentiras... 

agora, só me conta que quando eu te encontrar o que temos planejado, quantos desvarios, você sabe que crescemos e antes, na infância, nos desencontramos demais. Você esteve e sempre estará entre aqueles primeiros beijos tímidos e curtos, como sempre esteve presente, de alguma forma... ainda que toda distante, eu te mantive carregado na minha desordem, embora não tenha nenhuma foto sua e olha que não faltaram tentativas! 

Vem cá... me explica como você se desencontrou de mim e não se faz de sonso, que eu sei que tomou conta de mim enquanto não aparecia, nem se revelava, até sabia algumas coisas que a mim faltavam o senso de esconder, de manter na discrição. E como, tão longe, conseguiste sabê-las? você ainda perde o sono, ainda conta a história daquelas gêmeas? 

e olha, geminiano, nesse teu aniversário, nesse teu desespero, te concedo esse meu texto pra você lembrar de mim, pra você, na verdade, deixar de ser vaidoso ou aprender a cessar desse teu orgulho maior! te cativei na minha puberdade mórbida e se você de mim gostou naquela época, certamente gostará mais de mim agora. E eu de você. Vamos ser amigos, mas se na manhã seguinte não quisermos nós, tudo bem, já não vales nada, és página virada, descartada do folhetim. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

coexistência

A gente coexiste. E no meio da multidão, separados, coexistimos como irmãos, amantes, pais e filhos, como demônios e anjos, criaturas e criadores. Coexistimos na existência precipitada, naquele vácuo atraente que nos atinge no meio de manifestações, manifestamos o nosso amor e nos amamos, independente dos nossos preconceitos, das nossas antecedências.

Quero poder segurar a sua mão e te acalmar, eu vejo que você está tenso e ando com você no meio daquela gente ansiosa. Eu seguro a sua mão e te ofereço um pouco de água, um pouco da minha boca na sua pele, eu vou abaixar a sua febre corriqueira e vou te deixar em paz também, porque quero um pouco de paz também. Não vou te tiranizar. 

Caminharemos em sintonia, porém saberemos ver em todas as nossas direções. E se tivermos que fugir da polícia, se nos reprimirem, se nos calarem, não larga da minha mão, não me perca de vista, não te perco de vista, não nos perderemos por nada. O silêncio comunicará o nosso amor, estamos pacíficos, lutando com a ternura do amor no jeito em que eu te abraçar. 

E quando nos fotografarem pra um álbum histórico, depois de coexistirmos, poderemos dizer aos nossos filhos o que foi feito por eles, porque você me prometeu casamento e eu aceitei, mesmo sabendo que poderíamos desistir de nós. E que ainda podemos, antes de termos filhos, antes de termos a oportunidade de formalizar a nossa intimidade numa cerimônia civil e formal. Mas nós casamos ali, enquanto eu te pedia pra não ir, pra não correr sem mim, pra que antes de tudo você me abraçasse e eu te beijasse e nós nos entendêssemos com aquele medo de perder, de desvencilhar, de deixar de coexistir.

A gente lutou junto em discussões, em pranto, em risos, em instinto. Nós, em paralelo, e todos podiam ver. Todos eram obrigados a ver, porque coexistíamos. Nos mobilizamos em amor, em exercê-lo, em mostrá-lo, em tê-lo e consumi-lo. 

Essa é a nossa revolução.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

lucy in the sky of diamonds

vamos embora pra marte, amor
porque lá não se sente dor
sei que nunca experimentei love before
mas sei que a gente pode tentar ser feliz
sem se reprimir

vamos fugir daqui, amor
as cortinas de casa serão os raios de sol
nossa vizinha será a Lua
o sonho mais lindo dos nossos filhos
será brincar nos anéis de saturno
podemos passar a lua-de-mel em Netuno
e envelhecer em Plutão

vamos morar em marte, amor
e deixar a Terra pra quem não sabe
morrer de amor

vamos deixar isso pra marte, amor
onde a gente pode surfar nas constelações
salvar os dragões de São Jorge
resgatar os mitos gregos
justificar a asma dos nossos pulmões

vamos ir pra marte, amor
onde podemos ser livres
não sentiremos o peso da gravidade
sempre nos puxando pra baixo
(e eu não tô falando das pessoas agora)

vamos pra marte, amor
viver a vida sem temor
plantar flores e aceitá-las com os espinhos
e quem sabe encontrar o pequeno príncipe
em cima de um baobá
e a Lucy in the sky of diamonds
cantarolando Yellow Submarine 
feliz, porque all she need is love.

eu e você em marte, amor.

o afeto mais ruidoso do mundo (ternura)

Hoje testemunhei o afeto mais ruidoso do mundo! Senti na pele, arrepiando-me a cada vácuo, a cada silêncio e risada aguda que franzia durante aqueles minutinhos. Digo diminutivo, pois eram esses, pequeninos, experimentando o flerte doce, dupla ternura de pequeninos que num primeiro contato, Caio, se desmanchou em deselegantes elogios à sua pequena conquista. Não sei o nome dela, mas ela correspondia como toda pequena: revirando os olhos, incorruptível, querendo paz e silêncio. O pequeno Caio conseguia arrancar uma pequena risada segura dela às vezes, e sem timidez voltava a investir nas brincadeiras que davam certo. 

Ela pegou o seu iPod, dotada de manejos e charmes, colocou o fone de ouvido e atraiu a atenção do seu alvo. Ele pediu que ouvisse música com ela, mas ela disse que não e entregou o fone sem dizer nada e ele não a questionou, afinal.

Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.
Os pequenos continuaram a ouvir as músicas, ele sempre se inclinando para o banco dela, querendo ver o que estava na pequena tela do aparelho, ficando perto e balançando as perninhas na cadeira, enquanto a menina mantinha aquele sorriso de canto até o fim da viagem.

Mas os protagonistas, de tão fofos, arrancaram de si um antagonista mais coadjuvante do que vilão, pois na história não surtiu papel algum, a não ser o de trovador solitário. Admito que o Felipe seja deveras esquizofrênico e estende um vocabulário nada normal para uma criança de doze anos, embora esteja quase sempre colocado erroneamente na frase, no seu significado, como o de toda criança.

Felipe tentou competir e admito que foi um fracasso! Pois a pequena ganhava sem nenhum esforço, sem nunca ter conseguido arrancar nem uma pequena olhadela do amigo, nem uma faísca de atenção do Caio depois que conheceu as músicas da sua pequena.

Ele até repudiou uma das músicas da sua moça, mas depois se reconciliou, aceitou-a como ela é e manteve o sorriso no rosto, sem ouvir as divagações do seu amigo, sentado ao lado, cutucando-lhe os ombros, mendigando por atenção.

Felipe acusava: você é anti-patológico! Fiz um esforço pra entender a palavra, a intenção do pequeno homenzinho (que certamente morará com a mãe até os quarenta) ao dizer que Caio era anti-patológico. Sabia o que era anti e certamente sabia o que era patológico, embora Felipe não soubesse. E chamar Caio de anti-patológico parecia até certo no contexto, pois Caio não ligava, era anti-patologia, anti-doença, anti-preocupação, anti-mundo, ele era pró-liberdade, pró-amor, ele só queria ficar sentado ouvindo as músicas do iPod da sua pequena até a viagem acabar.  

Felipe queria examinar a patologia do amigo, incapaz de se desvencilhar do que é palpável. Mas então ele tentou justificar o seu neologismo (que aderiu um significado múltiplo, portanto chamo de neologismo): anti-patológico é alguém que troca pessoas por objetos materiais... Meu caro amigo não sabe nada de amor, com certeza. Ele não estava interessado no objeto, na tecnologia, mas na garota amorosa de olhos morenos, cabelos negros e imperturbável, séria, que não daria atenção de graça a um menino engraçadinho do transporte. Mas abriria um sorrisinho pra mantê-lo interessado.

Queria poder dizer ao meu amiguinho Caio pra tomar cuidado, pra não se deixar confundir com sorrisos indecifráveis, músicas bobas e momentos de amor. Queria poder dizer a ele que essa pequena dele não é mole não, a garota parece inocente, mas é perigosa e já tão cedo sabe bem como mexer com o coração das pessoas! Ser devorado e decifrado é para os corajosos, meu pequeno príncipe, e você não sabe se vai aguentar os espinhos da sua bela flor.

domingo, 16 de junho de 2013

for a sinner like me

and it's breaking over me, a thousand miles onto the sea bed
I found the place to rest my head.
never let me go, never let me go.

It's hard to say goodbye, I never forgot you... You know, I remember. I really do, I know, you asked me if I had forgot you and I said I did, but I didn't! I couldn't. How can I forget you when I remember all those movies and all those fucking songs and all the kisses I had never ever tasted... and just because of you I had the best experience on drugs and drinks and sex. I'm not making any sense, I know... we've never met each other, but then... then, I remember, you said you loved me and I couldn't love you back. I couldn't love you, you were so far away from my body and I'm used to love with the body and never think about the soul. But you were my very favorite poet, and for that I'm so sorry, I'm not who you think I am... the thing is, I don't know who I am and letting you get into me was never an option. Being your boat for you to travel back here and take me with you, however you wanted? No, it was never going to happen. I fell in love with you and it was such a crazy thing, I never told any of my friends about it, because I always needed a secret to reveal just in the right moment, just with the right person and the right wine. Wine... Wino forever and Johnny Depp and Winona, you know, Brighter than Sunshine, Criminal and Fiona Apple, of course I remember! HOW IN EARTH... Someone would forget you? You're my unforgettable fail, my reminder of fail, of cowardeness. Reflections of a Skyline, "wish I've know you forever"... Wish you were here now, that I'm not such a coward and that... I miss you. Come back, please, send me an e-mail or something. I promise I'll be a good girl to you now... although you always prefered the bad ones to call you daddy. I miss you, I need you, fuck the pride, let's get drunk and I'll take a train to Argentine, Mexico, Istambul, whatever. Just... give me a fucking yes and I'll be fine again. We'll be fine again. 


as carcaças (de mortos a vivos a mil palmos do chão)

I saw the café where Van Gogh decided to cut off his ear.
Esses dias matei uma mariposa. Era menor do que as que costumamos ver afora, mas era a maior que eu já tinha enfrentado. E para mim, enfrentar uma mariposa, com as asas beges e maneiras furtivas era um desafio. Mas não hei de descrever essa fobia consumida pelo meu âmago toda vez que se arrepia ao ver uma borboleta.
 
Eu faturei certa coragem com esse meu ato e depois de ver o seu cadáver exposto na parede, pensei em deixá-lo ali. Como fazem os caçadores com suas caças, empalam e deixam em casa, exibindo-os morbidamente orgulhosos a todas as visitas, como que dizer cuidado, sou perigoso.
 
Mas, geralmente, às minhas visitas eu não necessito dizer que sou perigosa. Se forem visitas, provavelmente me conhecem e riem de mim, na minha cara, bastante corajosos não se afastam de mim ao perceberem a loucura congestionada num corpo bem miúdo. Poderia até dizer mais sobre como gosto de receber visitas que costumam beber conhaque, mas já me esqueci da última visita que tive e o conhaque provavelmente aniversaria este mês.
 
Não obstante, eu deixei a carcaça lá. Deixei. Não me atrapalhava. Para alcançar a mariposa, na verdade, foram necessárias duas espécies de estepe e matá-la, ali tão alto, onde eu não alcançaria sem um grande esforço, fazia me sentir potencialmente arrogante. Insolente. Atrevida. E descalça, a arma do crime nas mãos, cultivei certa afeição pela ossada. Afeto que não teria por uma mariposa viva.
 
O cadáver, defunto, era bem mais simpático do que os vivos e disso, eu tinha certeza. Desde então, aquele bicho morto se tornou minha visita mais feliz, minha visita mais presente e que, imóvel, me deixara presenciar sua decomposição com prazer. Sabe, ela não é rápida em se desfazer, acredito que demorará anos para que se desfaça por completo ou que alguém se incomode o bastante para ir tirá-la de lá. Mas eu sempre a apreciei demais. Às vezes me sento de frente a ela, lendo um livro, com os pés na parede onde ela morreu, fazendo companhia a um cigarro ou uma cerveja, e a ela. Que não pode ir embora, que já não sairá voando e nem me deixará num domingo por nada.
 
Talvez até soe meio óbvia a declaração, afinal, está morta, mas é como se os mortos soassem mais bonitos e felizes aos vivos do que eles próprios. Onde não há sofrimento e se permanece eternamente na memória, na parede, paralisado numa foto guardada ou exposta em um porta retrato na intimidade do quarto. É como a mariposa, leve, ali comigo, sem poder me abandonar, embora não esteja presa e nem presente de verdade, porque uma vez voou pra dentro de mim e fez alguma coisa aqui dentro que me fez matá-la. A sua vingança foi continuar carcaça, grudada na parede do meu corpo, sem que eu tivesse a valentia de ir removê-la de lá, uma vez que cometi o crime de massacrá-la. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

resistência

Não consegui tirar os olhos... e também de mim não tirava os olhos. E naquela multidão colérica, infernal, um calor que subia, a respiração lacônica. Um sorriso cúmplice, porque, afinal, éramos os únicos que não estavam sentados e esperavam, quase até apressados, distantes um do outro, mas perto tão perto na causa solidária de querer logo aquele almoço dentro de casa e longe da multidão.

Mas nos encontramos. E te encontrar fez o dia mais brando, fez a espera mais branda, eu te confesso. E talvez a gente nunca mais vá se ver, mas você até me disse um "que demora, né" com os lábios. E eu te li, foi bom te ler, tão descomplicado e ali, longe, eu até senti uma vontade súbita de te responder, mas ignorei. E sabe que foi até um ato corajoso da minha parte, pois aqueles seus olhos por trás do óculos me pareciam bem confusos e pesados, nada leves, e apressados. Eu lia nas cores que você usava, nos gestos que você fazia, que você tava aflito, assim, aflito mesmo e por isso nem me aproximei, nem me liguei à você, nem com os olhos, nem ao menos tropecei e cambaleei, como eu geralmente faço. Embora eu esteja escrevendo de você, talvez eu queira relembrar disso, daquele que me acompanhou nesse dia nefasto e que até conseguiu a comida antes de mim. 

Você gostou da tua comida brasileira? Não se irritou quando eu te deixei naquela fila errada, porque tinham duas filas e eu só vi aquela? Você se irritou porque eu não te respondi? Ou pensou a mesma coisa que eu? Sabe que hoje em dia as pessoas não se aproximam mais como antes e eu sou craque em ignorar ou  fugir desses sorrisos, dessas chances de escapar do mundo.

Precisava de você, obrigada por ter aparecido.
Vê se aparece outro dia... por aí... ou não.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Leila: I don't want to hurt you. I don't ever want to hurt you again.

 You have to wait... until you're uncovered. 
You have to wait with someone naked. 
And then you have to wait some more.
Viria, assim como tudo que melhora, antes piora para que possa melhorar. E não sei olhar nos seus olhos como antes, me distraio com muita coisa e ainda não te reconhecer... mas sei não sentir nada também. Sei, aprendi. Embora eu não possa negar que ainda me vem alguns lampejos de você, anônimo, às vezes eu nem me lembro o seu nome direito. Mas você me vem por vez ou outra. Mas nunca inteiro, você nunca veio inteiro. E eu não saberia dizer mais nada, eu acho que não precisaríamos dizer mais nada. Se me lê agora, sabe do que eu digo, mas olha nos meus olhos pra ver que eu realmente quero dizer aquela canção, que eu obedeci ao Chico e à você, passei bem, quase morri de ciúmes e enlouqueci, mas como era de costume, obedeci. Só não te convido pra vir aqui em casa, pra passar por aqui, porque antes eu quero ter certeza disso. Sabe? Ver as coisas piorarem, porque quando elas pioram e apertam podermos ver o que restou de fato. Saudade? Resquícios? Quer que eu venha despida de todos os meus sentimentos por você, quer que eu já não venha mais ou você ainda não sabe o que você quer de mim? Eu sei o que eu quero de você e eu não quero nada. E quando eu tiver certeza que não quero nada, nós podemos começar a limpo, porque apesar dos pesares, você é o único pra quem eu posso dizer certas coisas que naquele lugar ninguém entenderia. E ei, é difícil não gritar pra você vir comigo e ser arrastado pelos calcanhares do caos desse lugar... É difícil, mas eu logo me esqueço de você e lembro de mim, que me compreendo totalmente e entendo os meus silêncios e não tenho medo da minha intensidade. Você nem nos meus sonhos aparece mais, o que é um bom sinal, já que meu consciente inconsequente sempre fazia questão de ditar Freud e revelar meus segredos mais íntimos. Mas de você eu não lembro nem o rosto. Mas sabe, lembrar de um amor do passado, que não acabou, sequelado e deixado pra morrer no pó é mais vivo que você e isso me entristece até, porque eu achava a gente tão bonito. Mas agora você é um tanto estranho pra mim... eu já não te conheço mais, já não te leio como lia antes e não tenho mais interesse de ler... já tinha me cansado de te conhecer. E sinceramente, alzheimer às lembranças que eu tenho, não queria tê-las, os luares já não me pertencem mais. (Pode me chamar de covarde, mas eu me pego tampando essas lembranças com a peneira, nunca funciona, porque elas aconteceram, mas eu gostaria de não ter tido tantos hiatos e bagunças bagunçadas demais, eu não consigo achar isso um barato. E se você acha... bem.)

Prometo que volto. Eu sei que você sente falta de mim. 
Prometo que fiz o que você pediu.
Prometo que ainda escrevo pra você
(já não aguento mais as suas perguntas no olhar de todos os dias quando te dou uma migalha de mim)

Quem sabe a gente pode começar de novo. Talvez você até gosta desse novo eu. E se não gostar, não tem problema, a gente desfaz qualquer coisa de novo, porque não vai doer. Nem doar. E se doer, consequência. É a vida. Chega de medo, ele não te leva a nada.

Eu não quero te machucar. Não quero te machucar de novo.

obs: não dá pra ter mais parâmetros. Somos eu e você, lembra? não somos mais ninguém, além de nós mesmos. Ninguém nunca vai escrever nenhuma canção pra mim e você. 

mas o Chico escreveu esse verso para o meu cantar:

quando você me deixou, meu bem,
me disse pra ser feliz e passar bem.
quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
mas depois, como era de costume, obedeci.

quando você me quiser rever
já vai me encontrar refeita, pode crer.
olhos nos olhos...

obs: não fica procurando neura, meu bem. as entrelinhas são poucas, se precisar de ajuda, chama o seu irmão pra ler. rs

segunda-feira, 10 de junho de 2013

don't you know me? / don't you know me by now?

"No, then it's like some male fantasy. 
Meet a French girl on the train, fuck her, and never see her again."

Daydream delusion, limousine eyelash 
Oh baby with your pretty face
Drop a tear in my wineglass
Look at those big eyes
See what you mean to me
Sweet-cakes and milkshakes
I'm a delusion angel
I'm a fantasy parade
I want you to know what I think 
Don't want you to guess anymore
You have no idea where I came from
We have no idea where we're going
Lodged in life
Like branches in a river
Flowing downstream
Caught in the current
I carry you
You'll carry me
That's how it could be
Don't you know me?
Don't you know me by now?
 (Before Sunrise, The Poet)

Incapacidade de amar

Quando me toquei, estava fora de mim, alenta e andando a esmo, vendo as escolhas tomadas por um outrem-ego ou alterego, como queira Freud dizer, dentro, ou devo dizer fora?, de mim. E aquele alguém se dividia aos poucos, tinha um cheiro diferente do meu, agia de modo semelhante, porém cruelmente divergente. E criava divergência absurdas, como se anônima pudesse sorrir para qualquer sorriso com hepatite. 

Despida de mim, da minha pele, do meu corpo, queria ter visitado alguém. Sair da dieta. Ir ao incomum, talvez até começar a trabalhar no meu epitáfio ou nos epitáfios daquelas pessoas que fora de mim eu podia perceber que eram visivelmente patéticas e não tinha porque fingir gostar um pouco delas. Queria ter tido a coragem de voltar pra mim apenas pra dizer a verdade que fora de mim eu tinha a coragem de dizer. Mandar uma carta. Perseguir alguém. Ouvir os discos do Chico nua, na chuva, na varanda, tomando um vinho barato, sentindo frio, sentindo alguma coisa! 

Engraçado que fora de mim podia sentir coisas que dentro de mim eu não poderia, ou me censurava, e por isso deixava que os outros me censurassem. E odiar gostar pra caralho de alguém que censurava minha intensidade, que não sabia que eu agia assim porque quando gosto de alguém, um alguém qualquer, homem ou mulher... que tem um medo e complexidade e neuras hipocondríacas enormes e deixar de lado, porque fora de mim eu percebi que não tô pronta, que não dá pra mim... Que ele é tudo que nunca quis em um outro alguém e mesmo assim, se aconteceu, era pra acontecer... E não me arrepender! Mas desistir inteira, ou metade, porque eu estava fora de mim e não entender e nem querer voltar a ser, porque eu já tinha ido, não sabia como voltar. Não pra ele... não para os velhos sentimentos. 

E se tivesse que voltar pro meu corpo, diferente assim, faminta, eu preferia. Eu disse que estava faminta? Longe de mim eu me reconhecia nos corpos, nos cotovelos, nas mandíbulas, nas coxas e desconfio também que nas entranhas de estranhos que me conquistavam com manias essas que eu sabia reconhecer na metade de mim que ficou de fora. Eu me sussurrava pra me lembrar de fazer aquelas coisas que meu eu devia ter feito, pra falar as coisas que o meu eu deveria ter dito e lembrava-me de não me perder no meio daqueles sorrisos amarelos e horríveis que a garganta supria no refluxo. 

Me assustei quando o corpo estava pronto pra me ter de volta, quando a pele queria se acariciar, quando eu pude me sentir de volta, quando o transe saia do anônimo e eu voltava pra mim, segurando uma cerveja, um sorriso falso e um sentimento de incapacidade, pois eu não poderia fazer nada daquilo que eu teria feito quando estava fora de mim, dentro de mim mesma. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Anaïs Nin



“Um quarto de hotel, para mim, tem a implicação de voluptuosidade, furtiva, fugaz. Talvez o fato de não ver Henry tenha aumentado a minha fome. Eu me masturbo frequentemente, com luxúria, sem remorso ou repugnância. Pela primeira vez eu sei o que é comer. Ganhei dois quilos. Fico desesperadamente faminta, e a comida que como me dá um prazer duradouro. Nunca comi desta maneira profunda e carnal. Só tenho três desejos agora: comer, dormir e foder. Os cabarés me excitam. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar-me em corpos, beber um Benedictine ardente. Belas mulheres e homens atraentes provocam desejos em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas. Nunca olho para rostos inocentes. Quero morder a vida e ser despedaçada por ela. Henry não me dá tudo isso. Eu despertei o seu amor. Maldito seja o seu amor. Ele sabe foder como ninguém, mas eu quero mais que isso. Eu vou para o inferno, para o inferno, para o inferno. Selvagem, selvagem, selvagem.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

inofensivos


Entretia-me, falava várias vezes e enquanto o cinzeiro cheirasse às suas guimbas, não retirava-me de lá, apenas se levada por seus braços. Gostava dele, gostava ainda mais quando saciava-me a vontade de contar alguns de meus casos versejados de acasos que atropelaram-me no dia. Ele os escutava, tomava um conhaque, oferecia-me seu colo e lábio… Algumas vezes, não conversávamos. Eu conhecia os cômodos de sua casa, conhecia as pessoas de suas fotografias e seus pais. Ele conhecia meu corpo, também minha alma e uma vez, conheceu meus pais. Sentia-o subir as paredes quando arrastava as unhas em suas costas e quando ele roçava sua barba em minha pele, meu gostar por ele intensificava as expectativas. Gostava de quando ele desviava o olhar e eu podia olhá-lo por quanto tempo pudesse e se voltasse a me encarar, olhava pro extremo oposto, convencida de que ele não notara. Eu gostava de convencer-me que esses gostares eram inofensivos.

perto do osso a carne é mais gostosa


Que frustração, meu bem, que dia, que conclusão eu tomei? Acho que tomei do seu cálice (um cale-se, mas não me reprima, por favor!) e levei milênios pra te entender e talvez compreender que perto do osso a carne é mais gostosa. Deixei pra você um amor aí e se aceitar, aceite e não me venha com essa de não vá embora, que me vou completa. Fico em pedaços pra você mimar o que quiser, mas não estarei realmente lá. E se me perco, me perco bastante, é verdade, mas não é nada usual. Não deixas eu te amar, te cativar do jeito que queres que eu cative, que eu goste e ame, então fico no meu gostar... pois nada tenho mais a oferecer do que minha bagunça. Mas sabe, pensando um pouco melhor, talvez você tenha razão... não dá pra mim não. E não porque posso amar você mais do que você a mim ama, mas porque posso enjoar da sua confusão como enjoo todos os dias. E estar mais próxima, mais íntima dessa sua loucura pode me fazer fugir. E provavelmente me fará fugir, como se não soubesse suportar, como se não quisesse mais, porque eu fujo do que me oprime, eu grito, não quero mais e não quero mesmo! Queria ter a coragem de seguir nessa viagem, de me magoar, sabe, como você tem medo de magoar. Mas isso faz parte, pra me perpetuar no mundo, chorar que nem uma viúva, me negando por aí e lavando minha alma com um amor que não me foi dado! Isso me sobra amor, isso me faz reter alucinada os meus saltos eternos de equilibrista. Você até que me segura de vez em quando, mas acho que estou caindo rápido agora... Repousando meio farta de você, indo pra longe, como você está dizendo que não quer, mas fazendo que quer constantemente. Em carne viva, meio que deixando a ferida aberta pra todo mundo ver. Eu meio que me vou me reter agora, se não se importar, deixar minha intensidade de lado, quem sabe, te dar o que você quer. O que não sou eu... Se você gosta da atriz que eu te esfregar na pele, pode ficar com ela, eu não ligo dessa mulher habitar o meu corpo, dessa saudosa mulher que é sua escrava e etc. Eu sinto o que eu sinto e se não aceita o que eu tenho pra te dar, fica com aquilo que não te dão. Me deixa mansa, me sinto beijada pelos seus olhos ao longe e ficamos felizes, não? O fingimento não é a mesma coisa, não rouba os mesmos sentidos? Não invento amor nenhum, não sambo no escuro, não planto em lugar infértil, só vou no seguro, porque não sou do tipo corajosa o suficiente pra enfrentar um lugar onde não tem flor. Sou abelha, recolho pólen pra levar pra minha colméia e proteger minhas irmãs. E são essas todas irmãs que são as mulheres que estão dentro de mim e que não desistem na primeira flor, inclusive. E se não deu certo, não deu, pena, tem outras flores de onde pegar o pólen. Como disse que não quer acabar conosco, então não te compreendo, pois todos os dias acaba conosco. Então deixe o amor mofar, que a gente pode tentar um dia ser alguma coisa. Deixa ele mofar, virar lixo e resto, pra ver se um dia vira luxo. Vamos ver se a sua ideia de amor funciona, já que a minha não parece nada certa, como tudo que eu faço parece tão errado...


sábios em vão
tentarão decifrar
o eco de antigas palavras
fragmentos de cartas, poemas
mentiras, retratos
vestígios de estranha civilização


não se afobe, não
que nada é pra já
amores serão sempre amáveis
futuros amantes, quiçá
se amarão sem saber
com o amor que eu um dia
deixei pra você
(chico buarque)

domingo, 2 de junho de 2013

dissabores



me desculpa,
se um dia eu pedir
pra você me amar
e você ainda não estiver pronto


eu te desculpo
também
por perder
a aposta pra mim...


e por te chamar de meu bem,
e ler anaïs nin
me perdoa por te querer demais
desculpa por não ter te encontrado só depois
depois
esse depois que nunca chega pra nós dois
que melodia bonita essa que soou agora


me desculpa porque eu vou beber um conhaque
e me desculpa por nunca te telefonado, nenhuma vez
me desculpa, porque senti sua falta e mesmo assim
me apaixonei


me desculpa por fazer suposições e ter várias canções só pra nós dois
me desculpa por nunca ter te contado isso, minhas aflições
me desculpa porque você pode ter me perdido pra mim mesma
vou parar de me desculpar pra te perder em desculpas...


eu tava ouvindo Billie Holliday e me bateu uma saudade
de dançar no quarto,
pra você, quietinha, imbecil, rebolando os quadris, quietinhos também
e Nina Simone! Ah, imitar a imitação dela, balançando quieta...
te dizendo: "baby, you're gonna miss that plane"


mas sabe que esses dias, coando o café...
ah, esses dias, parece até que não te vi esses dias.
antes de te encontrar, te confundi com alguém...


me desculpa por te confundir tanto
me desculpa por me confundir tanto
me desculpa por te amar assim, confusa e toda.
me desculpa por ser louca,


perdoa o poema... e volta pra mim.

eu não saberia te aproveitar



 De onde vem toda essa beleza... não sei, apenas me pego admirando. E tropeçando, não sabendo o que dizer ou se devo, até. Ou ficar em silêncio é uma prova do meu gostar insano? Do meu respeito inteiro, da metade da minha vergonha? mas se me elogias, ou fala um pouco sobre mim, desabrocho, me toca na vaidade, me sinto infinitamente tocada, estimulada com seus risos, seus toques e a suas distrações. Eu poderia ficar ali, só observando absorvendo toda boba como é toda essa sua loucura. Cheirar alguns livros com você, não importa. Só os certos, ou não. Prosear um pouco na cabeça, "ah, que loucura!", mas te aceitar como é, do mesmo jeito, pois me aceita toda errada como sou, também. E nem sei porque o faz, nem sei porque o tenta, nem sei porque atura e procura, ao mesmo tempo em que foge. E o seu fugir já não me deixa à toa, eu sei me cuidar de você agora... Simulo como estou bem, simulo um bem danado, mas até que sei me virar. E me virar por aí, pelas coxas, pelos anos, pelos dias, mas está melhor agora, estou melhor agora, me livrou da saudade dos teus olhos que me metem um medo danado, inclusive. Embora eu tenha tantos emboras pra te contar... Esse é o meu dilema, do morango, te querer profundamente aqui ou te querer tão longe só pra admirar, pra nunca estragar a sua beleza, pra não encostar os meus dedos horrivelmente podres na beleza das tuas pétalas, das tuas cores. Isso, fique à minha distância, não se meta comigo, eu não saberia te aproveitar... não, eu não saberia. E mesmo assim, te desejo infinitos morangos, para que os devore como devora todas as minhas sanidades. E me procure, mas também me esqueça e por favor, não vai embora.