terça-feira, 30 de maio de 2017

deus líquido

talvez deus esteja dentro de nós
líquido como o sangue
a sua fúria correndo em nossos canos frágeis
o som dos ossos na cripta da nossa carne frígida
mostra que deus está vivo e
a balbúrdia de deus ecoa
encarcerado nas paredes maciças
mas há algo errado com o deus da nossa carne
ele morre toda vez que eu menstruo
e toda vez que eu vejo deus
é apenas para pedi-lo que não procrie:
O SENHOR JÁ NOS FEZ FRACOS DEMAIS.


eu ando perdendo alguns hábitos como
deixar ao acaso que a próxima música da rádio
represente o sentimento de alguém por mim
ou
o hábito de fumar para ir ao banheiro
o hábito de sing along
o hábito de conversar sozinha em inglês
o hábito de querer controlar o que pensam de mim
o hábito de gritar com objetos inanimados que me desobedecem
o hábito de chorar
o hábito de me entreter com histórias repetidas
o hábito de não esquecer
o hábito de esperar o inesperado
o hábito de colocar romance numa colher de café
o hábito de mergulhar
o hábito de tomar banho quente
o hábito de estar satisfeita
o hábito de não ficar faminta
o hábito de me tocar
o hábito de me olhar no espelho
o hábito de fotografar
o hábito de não me perdoar
o hábito de gostar da rua
o hábito de paredes (porque talvez eu tenha mais do que quatro)
o hábito do barulho
o hábito de preferir a noite
o hábito do escuro
o hábito de desistir
o hábito de não insistir
o hábito do isolamento
o hábito da poesia

o hábito de atualizar as pessoas sobre minhas perdas de hábito é apenas um hábito que, ao mesmo tempo nunca adquirido, nunca perdi.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

seus olhos

sua pele
a mesma textura 
que nunca toquei
sua carne
o mesmo gosto cru
que nunca provei
ainda tem a mesma cor
que nunca enxerguei
seu corpo
o mesmo endereço
que eu nunca soube
a mesma voz
que eu nunca ouvi

sua cama
os mesmos lençóis
que você nunca trocou
onde eu nunca deitei
suas meias
as mesmas cores
as mesmas dúvidas
seu sorriso
o mesmo formato
seus olhos o mesmo adeus
que nunca tivemos
seus olhos o mesmo amor
que nunca tiveres
seus olhos o mesmo encanto
que nunca esqueci
seus olhos
o mesmo mar onde morremos

seus olhos
apenas os olhos
e uma dor
a minha
que nunca passou

quinta-feira, 19 de maio de 2016

sinceras mentiras

quando em sua cama, nua, não mentirei
mais das mentiras cruas
ao som dos fôlegos suplicantes,
ecoando entre os lençóis da nossa carne,
que um dia resolvi contar

entre os goles dos nossos beijos,
já não guardarei mais os segredos
que um dia jurei nunca mais esconder

se hoje me vês nua
com seus joelhos em minhas costas
e os gemidos em seu ouvido
é porque me entreguei toda aos seus suplícios
que lutavam contra mim todas as noites

se hoje me vês agora
vestida ou despida
é porque não há mais nenhuma despedida
que me faça encerrar o contrato

quando nua em sua cama,
não adicione drama à nossa querida trama
aceite alguns beijos roubados
e durma em paz ao meu lado
que a minha pele dolorosa

já não mente mais.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

esquemas dilemas versos ou problemas

não entenda nos meus beijos um problema
que os músculos dos teus ósculos não solucionarão
nenhum deles

não entenda no meu silêncio algum esquema
porque já estou nessa durante alguns anos
e meus problemas já tão velhos
minhas gavetas já lotadas
e as araras cheias de roupas penduradas
ainda que não me sirvam mais

não entenda na minha poesia algum dilema
que minha escrita é liberdade
é passarinho azul que eu deixo cantar
na rua ou em casa
debaixo de lençóis ou nos jornais

não entenda os meus versos
a minha alma quem resolve é a minha pele
e meu corpo quem resolve é minha alma

então
não me entenda só por esquemas,
dilemas, versos ou problemas
porque sou muito mais do que esqueço
muito menos do que pareço
e muito mais onde pertenço

sou, talvez, sozinha no mundo
e silêncio qualquer
sou, talvez, sozinha em tudo
ainda mais quando mulher.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

saudade com você do lado

tenho saudade, mesmo com você dormindo
saudade de quando eu tinha ritmo
pra recolher os cacos dos vãos

saudade dos dias corridos
de tropeçar meus lábios em seu umbigo
e nunca soltar da tua mão

saudade dos versos vividos
de morrer e viver nos teus olhos
e me machucar ao atingir o chão

saudade do teu olhar perdido
que sempre rimou comigo
e terminava noutro dia
versinhos em grão

saudade de ter te escolhido
costas e colchão no chão
aqueles cigarros perdidos
e o seu cheiro impregnando
às minhas mãos

saudades dos táxis pagos
horários amarrados
tremidos e safados
que nunca mais estacionarão

saudade de ter saudade do tempo
que mesmo que pedisse retorno
por mais lindo e etéreo que fosse
para ele eu diria não.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

meio fio

cadela deitada no meio fio
imóvel
uma mulher perdida, uma filha da puta
tentando se encontrar
em algo que não seja eu

você me deixou
e eu sofro ou não
estou cansado de sofrer

eu ordeno
que não me confundas
feche a cortina
eu estou completamente nu

eu preciso ser provocado
mas estou cansado de sofrer

(gabriel f. santos)